Educação - Como surgiu a ideia
para Os Factos da Vida?
Ana Saldanha (A.S.) - Fui contactada pela responsável
por um projecto apoiado pelo Instituto Gulbenkian para a Ciência, a Ana
Godinho. Ela vivia nessa altura em Edimburgo e encontrámo-nos em Glasgow.
A Ana falou-me do projecto de escrever um livro de ficção juvenil
para desmistificar a imagem da Ciência e dos cientistas e eu fiquei entusiasmada
com a ideia.
Educação - Em Os Factos
da Vida deixa várias e divertidas pistas, fomentando junto dos leitores
a pesquisa dos temas abordados. Crê que seria importante um contacto mais
estreito com o dia-a-dia dos profissionais que desenvolvem o seu trabalho na
área científica conhecendo os desafios e os obstáculos
com que se deparam?
A.S. - Muito. Antes de escrever o livro, eu tive a
oportunidade de passar algum tempo no Instituto de Biologia Molecular e Celular
e verifiquei que a investigação científica tem pouco a
ver com a imagem "descabelada" que nos é transmitida por vários
meios. Numa idade mais impressionável, quando os jovens estão
ainda a pensar no que querem ser, os contactos directos com a realidade do trabalho
científico certamente entusiasmariam muita gente.
Educação - Nesta obra são
frequentes as referências ao trabalho de Marie Curie. Como vê em
Portugal a integração das mulheres na área da Ciência,
bem como a valorização do trabalho que desenvolvem?
A.S. - Embora não tenha dados concretos, o
que pude ver, tanto no IBMC como no Instituto Gulbenkian para a Ciência,
foi que as mulheres (as mulheres jovens) estão muito bem representadas.
Talvez o nosso sistema perverso de acesso ao ensino superior seja em parte responsável
por esta situação, que, noutras culturas, poderia ser tomada como
o resultado de uma estratégia politicamente correcta para discriminar
positivamente a favor das mulheres.
Educação - “Que saudades
eu tenho do tempo em que era ditar o sumário, fazer uns exercícios,
ir ao quadro…” suspira Toninha, uma das personagens do livro, quando
é organizado um debate sobre clonagem pela professora que vem dar uma
aula de substituição e para o qual ela traz inclusive uma apresentação
em PowerPoint. Como vê a crescente utilização de recursos
na área das Tecnologias e Informação e Comunicação
no ensino e, em particular, na divulgação e promoção
da Ciência entre os jovens?
A.S. - Eu sou fã de todas as tecnologias de
informação. Só espero que não sejam por vezes utilizadas
"para inglês ver".
Educação - A
clonagem motiva várias conversas entre os jovens personagens de Factos
da vida. Este é também um tema que suscita um intenso debate
na sociedade, em especial no que respeita às questões éticas
e de direito na investigação nesta área - já objecto
já de limitações legais em alguns países. Como vê
a discussão sobre a liberdade de investigação face à
preservação da identidade de cada indivíduo?
A.S. - É um tema difícil. A identidade
de cada pessoa sofre erosões e ataques, desde o momento da concepção
até à hora da morte; mas a clonagem humana continua a parecer-me
uma espécie de fronteira final. Não julgo que a liberdade de investigação
possa alguma vez justificar a criação de um mundo de réplicas
— mas que sei eu? Há um século, a fertilização
in vitro, se fosse sugerida, teria parecido um verdadeiro atentado à
dignidade humana.
Educação - As conversas
descontraídas entre os personagens e entre os jovens e os seus professores
e pais surgem com naturalidade ao longo das páginas da obra. Crê
que a pressão - que hoje surge cada vez mais cedo - para ser bem sucedido,
estará a deixar às crianças e aos jovens pouco tempo para
a brincadeira e o lazer, e mesmo para que os pais possam explicar alguns dos
“factos da vida”?
A.S. - Não acho que falte tempo. O nosso sistema de
ensino é especialmente "mãos-largas" no que diz respeito
a férias e feriados. Talvez se tenha perdido um pouco a arte da conversa
e o gosto por ela, isso sim.
Educação - Diria que os jovens portugueses
são leitores curiosos?
A.S. - Bastante. E também atentos e exigentes.
Educação - Da
sua experiência de ensino em Portugal e como Leitora de Português
no Reino Unido, acha que existem aspectos e características positivas
em cada um dos sistemas de ensino dos dois países que seria importante
que ambos partilhassem?
A.S. - Sim. Nós poderíamos aprender
a não fazer coisas apenas "para inglês ver"; a seguir
menos cegamente as ordens superiores, os programas; por exemplo: muitos professores
me dizem que não têm tempo para fomentar o gosto pela leitura porque
têm de cumprir o programa…; e a redefinir os critérios de
avaliação no ensino, que são de tal modo irrealistas que
os alunos portugueses são dos que têm mais insucesso. Os ingleses
deviam aprender gramática (pelo menos uma meia dúzia de termos
e conceitos gramaticais) e trabalhar menos nos pubs à noite
para custear o curso.
Educação -
Recentemente comemorámos o dia mundial de luta contra a infecção
pelo VIH/Sida, uma data que veio salientar que, actualmente, Portugal é
o quarto país da Europa Ocidental com mais novos casos de VIH. Como vê
a consciencialização dos jovens para os factos desta realidade?
A.S. - As campanhas de consciencialização
são bem visíveis. Não sei o que está a falhar —
um empenhamento directo dos pais e dos educadores?
Educação -
Para finalizar perguntaria como imagina o futuro quotidiano, profissional e
familiar, daqueles que são os jovens de hoje?
A.S. - É provável que não se livrem da
incerteza e da falta de segurança (no trabalho, nas relações
pessoais) que já existem. Mas a sua vida será mais interessante
e preenchida do que a dos meus contemporâneos.
Entrevista de: Alexandra Aguiar
Dezembro de 2007.